Financiamento & Crédito

SAC ou Price: a decisão de 10 minutos que vale R$ 100 mil

O gerente do banco apresenta as duas opções lado a lado. A Price tem parcela mais baixa e cabe no orçamento familiar sem apertar. A SAC tem parcela inicial mais alta, que aperta. O casal escolhe a Price para dormir tranquilo. Quinze anos depois, revisando o extrato do financiamento, descobre que pagou R$ 120 mil a mais em juros do que pagaria se tivesse escolhido a outra opção, aquela que no dia da assinatura parecia a dura, a arriscada, a que apertava.

04 de outubro de 2026 · 7 min de leitura · Categoria: Financiamento
Casal de 31 e 28 anos, primeiro imóvel próprio, apartamento de R$ 450 mil em bairro escolhido com cuidado. Financiam R$ 360 mil em 30 anos pela Caixa, taxa de 11,19% ao ano mais TR (a Taxa Referencial, indicador oficial que corrige mensalmente o valor que ainda falta pagar ao banco). No dia da assinatura, o gerente apresenta a planilha com as duas opções lado a lado. Pela tabela Price, a parcela inicial é de R$ 3.510 e permanece praticamente igual pelos 360 meses. Pelo sistema SAC, a parcela inicial é de R$ 4.390 e vai caindo ao longo do tempo, chegando a R$ 1.280 no último ano. O casal olha os números, lê "a parcela do SAC cabe mas aperta, a parcela da Price cabe folgado", e escolhe a Price. Quinze anos depois, numa noite calma de revisão do orçamento familiar, puxam o extrato do financiamento. Descobrem que, se tivessem escolhido o SAC naquele dia, teriam pago R$ 120 mil a menos em juros ao longo do contrato. O banco nunca mostrou essa conta.

A escolha entre SAC e Price é uma das decisões financeiras mais caras do financiamento imobiliário brasileiro, e também uma das menos explicadas no momento da assinatura. O gerente do banco apresenta as duas opções lado a lado, mostra a diferença da parcela mensal, deixa o cliente escolher. Quase ninguém mostra o valor total pago ao fim do contrato, que é onde mora a diferença real. E essa diferença, em financiamentos típicos brasileiros de 2026, varia entre R$ 100 mil e R$ 310 mil a mais na tabela Price ao longo dos 30 anos de contrato.

A conta que o banco quase nunca mostra em 2026 Em financiamento de R$ 400 mil por 30 anos à taxa média de mercado de 11,5% ao ano mais TR, a tabela Price faz o comprador pagar entre R$ 100 mil e R$ 310 mil a mais em juros totais do que o sistema SAC pagaria. A diferença exata depende da taxa contratada: quanto maior a taxa, maior a vantagem do SAC. A informação está disponível em qualquer simulador de banco, inclusive no da Caixa, mas raramente é apresentada na mesa de negociação. O cliente escolhe comparando parcela mensal, e descobre o custo real da escolha anos depois.

Como SAC e Price funcionam na prática

Antes de decidir qual escolher, vale entender o que cada um faz com o dinheiro mês a mês. Cada parcela de financiamento imobiliário tem duas partes: uma paga o principal da dívida (a chamada amortização, que é a redução efetiva do que você deve ao banco) e a outra paga os juros sobre o saldo que ainda falta. A diferença entre os dois sistemas está em como essas duas partes se combinam.

No SAC (Sistema de Amortização Constante), a parte da amortização é fixa em todas as parcelas. Em um financiamento de R$ 360 mil em 360 meses, a amortização é sempre de R$ 1.000 por mês. Como os juros incidem sobre o saldo devedor (quanto você ainda deve ao banco) e esse saldo cai R$ 1.000 todo mês, a parcela total também cai todo mês. No primeiro mês, você paga R$ 1.000 de amortização mais os juros sobre R$ 360 mil. No último mês, paga R$ 1.000 de amortização mais os juros sobre R$ 1.000 apenas.

Na tabela Price, a lógica é invertida. A parcela total é fixa durante todo o contrato (desprezando a pequena correção mensal pela TR). Para manter a parcela total fixa, o sistema concentra os juros nos primeiros anos e deixa a amortização para o fim. Nos primeiros meses do contrato, mais de 70% da parcela é só juros, e menos de 30% está realmente reduzindo a dívida. Esse desenho faz a parcela ser menor no início, mas faz o saldo devedor cair muito devagar.

"A tabela Price não é um crime nem uma armadilha. Ela é uma troca: parcela inicial mais baixa, pagamento total mais alto. Quando o comprador conhece a troca, decide bem. Quando o comprador escolhe só pela parcela mensal, descobre a conta tarde demais."

A conta completa em imóvel típico de 2026

O comparativo abaixo usa a taxa da Caixa na linha SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo, a linha padrão de financiamento imobiliário para a maioria dos compradores) de setembro de 2026, 11,19% ao ano mais TR, em financiamento de R$ 360 mil por 30 anos.

ItemTabela SACTabela Price
Valor financiadoR$ 360.000R$ 360.000
Prazo360 meses360 meses
Taxa (Caixa SBPE 2026)11,19% a.a. + TR11,19% a.a. + TR
Parcela 1ªR$ 4.390R$ 3.510
Parcela 120ª (10 anos)R$ 3.270R$ 3.510
Parcela 240ª (20 anos)R$ 2.150R$ 3.510
Parcela 360ª (última)R$ 1.280R$ 3.510
Total pago em jurosR$ 614.000R$ 734.000
Diferença entre os dois sistemas (Price paga a mais)R$ 120.000
Renda mensal exigida (parcela = 30% da renda)R$ 14.635R$ 11.700

A conta explica o padrão de escolha. A tabela Price exige 25% menos de renda para aprovação (R$ 11.700 contra R$ 14.635 do SAC), e isso significa que o mesmo imóvel pode ser aprovado para uma família que não teria renda suficiente para o SAC. Para muitos compradores, a escolha da Price não é entre pagar mais ou pagar menos: é entre ter o imóvel ou não ter. Quando é esse o caso, a Price é a decisão correta. Quando a família teria renda para o SAC e escolhe a Price só porque "aperta menos", está pagando R$ 100 mil a mais pelo conforto de uma parcela 20% menor nos primeiros anos.

O método CII para escolher em sete passos

Método CII, SAC ou Price

  1. Pedir ao banco a simulação dos DOIS sistemas, com o mesmo valor financiado, mesmo prazo, mesma taxa. Se o gerente só mostrar um, insistir no outro. Qualquer banco faz as duas simulações no sistema interno em segundos.
  2. Olhar o VALOR TOTAL PAGO ao fim do contrato, não só a parcela do primeiro mês. Essa linha fica no fim da simulação, geralmente escrita como "total de juros" ou "total do financiamento". É nela que a diferença real aparece.
  3. Verificar se a renda comporta a parcela inicial do SAC com folga. A regra prática usada pelos bancos é parcela até 30% da renda bruta. Se a parcela inicial do SAC fica em 28% ou 29% da renda, o espaço de 1-2 pontos pode virar aperto real quando chegar um imprevisto. Nesses casos, Price traz segurança que compensa o custo adicional.
  4. Pensar no horizonte real do financiamento. Em uma pergunta objetiva: você pretende ficar com esse financiamento pelos 30 anos inteiros, ou pretende quitar antecipado, portar para outro banco com taxa melhor, ou vender o imóvel e trocar por outro em 7-12 anos? Quem portar ou quitar em prazo médio, o SAC favorece porque amortiza mais rápido e o saldo devedor fica menor quando chegar a hora de negociar.
  5. Verificar se tem direito ao Pró-Cotista do FGTS. Essa linha de crédito, oferecida pela Caixa a quem tem FGTS ativo há 3 anos ou mais, baixa a taxa de 11,19% para algo entre 9,29% e 10,49% em 2026. Taxa mais baixa muda toda a conta, e vale fazer a simulação específica da linha Pró-Cotista antes de decidir SAC ou Price na linha padrão.
  6. Para quem compra pelo Minha Casa Minha Vida, lembrar que é SAC obrigatório. O MCMV não oferece a tabela Price como opção. A escolha, nesse caso, é entre MCMV com SAC e SBPE padrão com os dois sistemas disponíveis, e aí entram outros critérios (teto do imóvel, faixa de renda, subsídio).
  7. Considerar amortizações extras com 13º salário, PLR, FGTS. Quem planeja amortizar extraordinariamente ao longo do contrato, o SAC amplifica o efeito dessas amortizações porque o saldo devedor já está caindo rápido. Na Price, a amortização extra tem efeito menor nos primeiros anos justamente porque o saldo quase não baixou ainda.

Para quem quer aprofundar o lado financeiro da compra, vale ler o artigo sobre o cenário do crédito imobiliário em 2026, que traz as taxas de cada banco atualizadas, e o artigo sobre os sete dinheiros da compra em 30 dias, que lista por que fechar o financiamento com o primeiro banco já aprovado também custa dezenas de milhares de reais ao longo do contrato.

Três perguntas antes de assinar

  1. O banco te mostrou a simulação dos dois sistemas, com o valor total pago em cada um ao fim do contrato? Se a resposta é "me mostrou só a parcela mensal", a decisão está sendo tomada sem a informação principal. Pedir a simulação dos dois sistemas, com o número total de juros no fim, é direito do cliente e demora dois minutos de atendimento.
  2. A parcela inicial do SAC cabe no seu orçamento com folga de pelo menos 5 pontos da renda bruta? Se cabe com folga, SAC quase sempre é a escolha mais barata ao longo do contrato. Se cabe apertado, Price protege de imprevistos nos primeiros anos ao custo de pagar mais no total. Se não cabe, a decisão não é entre SAC e Price: é entre comprar esse imóvel ou procurar um mais acessível.
  3. Você pretende ficar com esse financiamento por mais de 10 anos exatamente nesse banco e com essa taxa? Se sim, SAC compensa o aperto inicial. Se pretende portar o financiamento para outro banco com taxa menor em 2-3 anos, ou quitar antecipado antes dos 10 anos, o SAC favorece porque chega nesse momento com saldo devedor menor, e a portabilidade (a transferência do financiamento para outro banco com taxa menor) ou a quitação antecipada sai mais barata.

Escolher entre SAC e Price leva dez minutos de simulação cuidadosa, e vale entre R$ 100 mil e R$ 310 mil ao longo do contrato. Nenhum outro passo da compra de imóvel tem retorno tão alto por tão pouco tempo de estudo. A conta está em qualquer simulador bancário, inclusive nos públicos do Banco Central e da Caixa, e no sistema do gerente que atende você. Só não aparece na mesa porque o padrão de atendimento mostra parcela mensal, não total ao fim do contrato. Quando o comprador pede a conta inteira, a decisão vira uma escolha com dado na mão, sabendo quanto custa o conforto da parcela fixa menor que a Price oferece nos primeiros anos.

Dez minutos de estudo valem R$ 100 mil ao fim do contrato

O guia Financiamento Descomplicado organiza o roteiro completo da negociação do financiamento imobiliário no Brasil de 2026, do primeiro contato com o banco à assinatura: comparação SAC vs Price com simulações reais, análise de CET entre os principais bancos, Pró-Cotista do FGTS, portabilidade, amortização extraordinária e os erros mais caros do caminho. Material feito para quem quer chegar na mesa de negociação sabendo quanto cada escolha vai custar nos próximos 30 anos, e não descobrir isso depois.

Conhecer o Guia, R$ 29,90
Acesso imediato · Pagamento via Hotmart